Entre viagens pelo Brasil e histórias da velha guarda, caminhoneiro de Curitiba transformou um Fenemê em parte da própria família e relembra décadas de paixão pelos caminhões antigos
Ele fez a lua de mel dentro de um Fenemê, e nunca mais conseguiu se separar do caminhão. Em meio ao ronco grave dos motores antigos e ao cheiro de diesel que marcou gerações de estradeiros, um caminhão verde chamou atenção durante o encontro de caminhões antigos em Ourinhos. Não apenas pela conservação impecável ou pela raridade do modelo, mas principalmente pela história de vida carregada em cada detalhe daquele clássico Fenemê D11.000.
Ao lado do caminhão estava Tony, caminhoneiro experiente, transportador e apaixonado pela cultura dos pesados. Para ele, o Fenemê vai muito além de um veículo antigo. É praticamente um membro da família. Foi dentro de um caminhão como aquele que ele aprendeu a dirigir, trabalhar, viajar pelo Brasil e construir a vida no transporte rodoviário de cargas: “O Fenemê me ensinou a conhecer o Brasil e até a ser mecânico”, conta.
Tony começou na estrada ainda nos anos 1970, em uma época em que o caminhoneiro enfrentava viagens longas, estradas difíceis e praticamente nenhum conforto. Segundo ele, o Fenemê foi uma verdadeira escola. O bruto ensinou mecânica, resistência e, principalmente, respeito pela profissão. Naquela época, as viagens saíam de Curitiba carregadas de madeira rumo a cidades como Brasília, Goiânia e regiões do Espírito Santo.

Com cerca de 18 toneladas na carroceria, Tony e o velho caminhão seguiam firmemente pelas rodovias brasileiras, encarando a serra, barro, chuva e calor. O caminhoneiro relembra que o Fenemê tinha personalidade própria. Era um caminhão que exigia paciência e atenção constante do motorista. Ao mesmo tempo, criava um vínculo difícil de explicar para quem nunca viveu a antiga rotina da boleia.
Para muitos caminhoneiros da velha guarda, dirigir um Fenemê era quase um ritual e mesmo após décadas no transporte e convivendo com diversas marcas de caminhão, Tony afirma que nenhum modelo conseguiu substituir a sensação de dirigir esse clássico. ““Eu tenho outras marcas de caminhão antigas, mas a sensação mais legal pra mim e pra minha esposa é o Fenemê”, explica o motorista.
O carinho é tão grande que o caminhão acabou se tornando parte importante da história do casal. Foi dentro de um Fenemê, inclusive, que Tony e a esposa fizeram a lua de mel. Recém-casados, os dois seguiram viagem carregados de madeira até Brasília e depois continuaram rodando pelo Paraná até Paranaguá. A jornada durou cerca de 15 dias, misturando trabalho, estrada e companheirismo.

Hoje, sempre que o clima ajuda em Curitiba, o casal escolhe um caminhão da coleção para passear. Mas, segundo Tony, quase sempre o escolhido é o Fenemê verde que guarda tantas lembranças. “Saímos passear quase toda semana… mas sempre acabamos escolhendo o Fenemê. Se minha esposa ouvir falar em vender esse caminhão, ela não deixa”, brinca Tony.
O caminhão exposto em Ourinhos possui uma trajetória rara. Comprado há cerca de 15 anos, ele pertenceu anteriormente a um senhor da região de Campo Largo, no Paraná. Antes disso, teve como primeiro dono um caminhoneiro da cidade de Contenda, que retirou o veículo zero quilômetro ainda em 1969. “Eu tenho outras marcas de caminhão antigo, mas a sensação mais legal pra mim e pra minha esposa é o Fenemê.”
Tony conseguiu reunir documentos históricos do caminhão, incluindo antigas promissórias da negociação feita na época. Entre os papéis guardados está o registro de quando o veículo foi trocado por um Mercedes-Benz LP321, assumindo prestações que ainda seriam pagas.“Hoje eu tenho uma transportadora, mas quem me ensinou foi isso aqui. O começo foi isso aqui”, reflete.


A originalidade do caminhão também impressiona. O modelo mantém praticamente toda a mecânica original e possui placa preta, reconhecimento dado apenas a veículos antigos altamente preservados. O motor passou por preparação leve para melhorar retomadas e desempenho nas ultrapassagens, mas sem perder as características tradicionais do Fenemê.“O Fenemê é bruto, mas tem alma”, brinca.
A restauração foi feita de maneira diferente do padrão visto em muitos veículos de exposição. Tony prefere chamar de “reforma para trabalho”. Para ele, caminhão antigo precisa estar pronto para rodar, frear e trabalhar com segurança, não apenas servir como peça de vitrine.“Esse caminhão não é restauração de vitrine. É reforma pra trabalhar”, desabafa Tony
O verde atual do caminhão também tem história. Apesar de originalmente o veículo possuir um tom mais escuro, Tony optou por utilizar uma tonalidade inspirada na Toyota Bandeirante, facilitando futuros retoques na pintura sem perder a identidade clássica. Dentro da cabine, o cuidado impressiona. O acabamento interno foi montado há cerca de 15 anos e continua preservado. O caminhão recebeu melhorias acústicas, mantendo o conforto sem descaracterizar o modelo. Até o colchão de mola antigo permanece instalado na cabine.

Além do Fenemê, Tony mantém uma verdadeira coleção de caminhões históricos. Entre eles estão um Ford F600 V8 1959, um Mercedes-Benz 312 de 1957, um Ford 13.000 e até um GMC que pertenceu ao antigo Circo Moscou, responsável pelo transporte de animais durante décadas.“Acho que os caminhões antigos me deram uns dez anos a mais de vida”, desabafa o caminhoneiro.
A paixão pelos caminhões nasceu ainda na infância. Uma das lembranças mais especiais guardadas por Tony é uma fotografia antiga da família ao lado de um Ford F600 do pai. Na imagem, feita no fim dos anos 1950, aparece o irmão mais velho, que faleceu em um acidente em 1988. A foto hoje ocupa espaço especial dentro do caminhão. “Meu pai era Fordeiro… mas o Fenemê ganhou meu coração”, confessa.
Mesmo depois de tantos anos de estrada, Tony continua defendendo valores antigos da profissão. Ele critica o excesso de velocidade nas rodovias e afirma que muitos motoristas perderam o respeito pela segurança. Em sua transportadora, os caminhões possuem limite de velocidade e evitam rodar durante a noite. “O que eu aprendi com o Fenemê tá lá dentro da transportadora até hoje, e tem dado certo”, conta o motorista.

Nos encontros de caminhões antigos, Tony também faz questão de lembrar das origens do movimento. Segundo ele, os primeiros encontros surgiram justamente entre apaixonados por Fenemê. Com o tempo, outras marcas passaram a participar, transformando os eventos em grandes celebrações da cultura caminhoneira brasileira. “Quem começou tudo isso dos encontros de caminhão antigo foi o Fenemê. O encontro hoje é consequência. O mais importante é rever os amigos.”
Para Tony, porém, o mais importante nunca foi apenas o caminhão. Foram as amizades criadas ao longo da estrada. Ele acredita que os veículos antigos aproximam pessoas, resgatam memórias e mantêm viva uma época em que o caminhoneiro precisava enfrentar o Brasil apenas com coragem, ferramenta e amor pela profissão. “Esse caminhão me deu amizades que talvez eu nunca teria na vida, Aqui mesmo, se eu não tivesse esse caminhão, talvez nós nunca íamos nos conhecer”, reflete.
E é justamente por isso que o velho Fenemê verde continua rodando. Não apenas como um caminhão antigo restaurado, mas como um símbolo vivo da história do transporte rodoviário brasileiro e de uma geração inteira que aprendeu a viver atrás de um volante pesado. “Esse caminhão faz parte da minha história”, finaliza Tony.
Histórias como essa mostram que caminhão antigo vai muito além de ferro, motor e nostalgia. Cada bruto preservado carrega décadas de estrada, sacrifício, amizade e paixão pelo transporte rodoviário brasileiro. E aqui no Planeta Caminhão, você continua acompanhando relatos emocionantes, raridades históricas e personagens que ajudaram a construir a verdadeira cultura caminhoneira do Brasil. Continue navegando pelo site e descubra outras histórias incríveis da velha guarda das estradas.

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