O que ninguém vê: Marcelo Gallao revela como nasce um caminhão Scania para operações especiais e como a montadora decide qual o tipo de caminhão que cada operação realmente precisa
Antes mesmo de ganhar forma na linha de montagem, um caminhão passa por uma etapa que pouca gente vê: a interpretação da operação. No transporte rodoviário, especialmente em segmentos de alta exigência, desenvolver um veículo vai muito além de definir potência, configuração de eixos ou capacidade de carga. Cada aplicação carrega particularidades próprias e, muitas vezes, aquilo que o transportador pede não é exatamente o que ele precisa para alcançar o melhor resultado na estrada.
É justamente nesse ponto que entra o conceito de TMA — Taylor Made for Application — da Scania, um processo baseado em escuta técnica, análise operacional e desenvolvimento sob medida. O objetivo não é simplesmente entregar um caminhão configurado, mas criar uma solução capaz de equilibrar desempenho, disponibilidade, consumo, rentabilidade e adequação às leis brasileiras.
Em entrevista ao podcast Vozes do Transporte, Marcelo Gallao, diretor de Desenvolvimento de Novos Negócios da Scania Operações Comerciais Brasil, detalhou como funciona essa estrutura que conecta o cliente diretamente ao desenvolvimento da fabricante. Segundo ele, existe um trabalho profundo de tradução entre a realidade da operação e aquilo que efetivamente será construído pela engenharia. “ Nós somos, de fato, o elo entre o transportador e a fábrica, o desenvolvimento ”, explicou Gallao.

A construção de um caminhão especial começa muito antes do pedido chegar oficialmente à montadora. A Scania mantém engenheiros em contato constante com diferentes tipos de operação espalhadas pelo país, acompanhando de perto os desafios enfrentados em segmentos como e-commerce, sucroenergético, transporte refrigerado, madeireiro e combustíveis.“ Eles ficam em cada atividade, em cada transportador. No e-commerce, no sucroalcooleiro, no madeireiro, na carga refrigerada, transporte de combustíveis ”, detalhou o executivo.
Com os dados em mãos, entram as análises técnicas e estratégicas. A fabricante avalia se já existe uma solução global aplicável àquela demanda, se será necessário um desenvolvimento local e qual o impacto em custo, prazo e desempenho. Segundo Gallao, o critério é claro: a marca só avança quando consegue gerar uma diferença real na operação. “O Scania só vai entrar se ele pode fazer uma diferença. Ele não entra para ficar igual ”, afirmou.
Esse processo também passa pela gestão de expectativas. Em muitos casos, motoristas, gestores de frota e empresários possuem visões diferentes sobre aquilo que consideram ideal em um caminhão. Enquanto o motorista prioriza conforto e ergonomia, o gestor olha para disponibilidade e consumo. Já o dono da operação busca rentabilidade e produtividade.

Para evitar conflitos entre essas necessidades, a Scania utiliza processos internos chamados de “clínicas”, reunindo todos os envolvidos para discutir custos, ganhos operacionais e viabilidade técnica antes do desenvolvimento final do produto. “Eu faço o que o cliente quer? Nem sempre é o que eu preciso fazer. Eu preciso interpretar o verbal e entender se é isso que ele precisa ”, explicou Gallao.
Segundo ele, o objetivo não é negar pedidos, mas construir soluções transparentes e tecnicamente sustentáveis. “ A gente não diz não para o cliente. A gente faz um jogo transparente com o cliente: ‘olha, isso vai custar isso e isso’. Vamos sentar todo mundo, vamos conversar, vamos fazer uma clínica. No final, depois de um, dois ou mais anos de desenvolvimento, você vai ter exatamente aquilo que você pediu ”, destacou.
A evolução das legislações brasileiras também impacta diretamente esse processo. Um dos exemplos citados pelo executivo foi a chegada das composições de 58,5 toneladas com carreta de quarto eixo, cenário que obrigou fabricantes a reverem parâmetros de torque, potência e desempenho.

Gallao destacou que, no caso da Scania, a solução não passa necessariamente por motores acima de 500 cavalos, quebrando paradigmas do mercado. “ Na 58,5 toneladas só pode ser caminhão de 500 cavalos para cima? Não. No caso do Scania, o 460 cavalos Super tem um torque que é ideal para 58,5 toneladas ”, afirmou.
A conectividade embarcada e a telemetria também se tornaram ferramentas decisivas nesse desenvolvimento. Hoje, a montadora consegue comparar dados reais de operação para mostrar ao cliente qual configuração entrega o melhor equilíbrio entre tempo de viagem, consumo e rentabilidade. “ A gente puxa dados de telemetria e mostra: ‘olha, o 500 na sua frota performa dessa maneira, o 460 performaria dessa’. O quanto esse tempo vale em relação à economia? ”, questionou Gallao.
Além dos números, o motorista passou a ocupar um papel central na construção dos caminhões atuais. Em meio à escassez de mão de obra no transporte, conforto, ergonomia e segurança deixaram de ser apenas diferenciais para se tornarem fatores estratégicos de retenção. “ A cabine é o apartamento do motorista ”, resumiu o executivo ao explicar o cuidado da fabricante em reproduzir um ambiente funcional e confortável para longas jornadas.

No fim das contas, o nascimento de um caminhão especial não acontece apenas dentro da engenharia ou da linha de produção. Ele começa na operação, passa pela escuta técnica, atravessa análises complexas e termina quando todas as peças, desempenho, economia, legislação, produtividade e conforto, finalmente entram em equilíbrio.
Mais do que fabricar veículos, o processo mostra como a indústria de transporte passou a enxergar o caminhão como parte estratégica do negócio do transportador. E, em um mercado cada vez mais pressionado por eficiência, entender profundamente a realidade da estrada talvez seja o diferencial mais importante dentro da fábrica.
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