Falta de profissionais qualificados provoca frota parada, aumenta custos operacionais e se consolida como um dos maiores gargalos do TRC em 2026
A escassez de motoristas profissionais se tornou um dos principais desafios do transporte rodoviário de cargas no Brasil. Em um setor altamente dependente da mão de obra para manter a operação funcionando, a dificuldade na contratação de caminhoneiros já afeta diretamente a produtividade das empresas, reduz a disponibilidade da frota e pressiona ainda mais os custos operacionais das transportadoras.
Levantamento divulgado pela NTC&Logística mostra que 88% das empresas do setor enfrentam dificuldades para contratar motoristas e agregados. O impacto já é percebido nas operações: entre as transportadoras que relataram veículos parados por falta de profissionais, a média é de oito caminhões ociosos por empresa. O estudo aponta que a escassez de mão de obra qualificada se consolidou como a segunda maior limitação para o crescimento do TRC em 2025, sendo mencionada por 28,1% dos entrevistados.
O problema aparece atrás apenas da piora do mercado interno, apontada por 40,7% das empresas, e supera fatores como dificuldade de acesso ao capital. A situação preocupa porque o transporte rodoviário brasileiro depende fortemente da atividade dos motoristas. Segundo a pesquisa, os custos com mão de obra representam 19,5% da estrutura operacional do setor, atrás apenas do combustível, responsável por 43,2%, e dos veículos, que respondem por 29,1%. Juntos, esses três itens concentram 92% dos custos do transporte de cargas no país.

Além da falta de profissionais, o setor também convive com uma escalada nos custos trabalhistas. Nos últimos 24 meses, os gastos com mão de obra acumularam alta de 13,42%, índice superior ao aumento registrado nos custos com veículos, de 2,61%, e próximo da variação observada no combustível, de 2,69%. Quando analisado um período maior, o avanço é ainda mais expressivo. Em 36 meses, os custos relacionados à mão de obra cresceram 20,2%, enquanto no acumulado de 12 meses até janeiro de 2026 a alta chegou a 7%.
Mesmo diante desse cenário, muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para repassar os aumentos ao valor do frete. De acordo com o levantamento, 55,6% das transportadoras reajustaram preços em 2025, com aumento médio de 6%. Por outro lado, 23,7% mantiveram os valores e 20,8% chegaram a conceder descontos médios de 5,7%. A pesquisa também revela uma defasagem média de 10,1% entre os custos calculados pela NTC&Logística e o frete efetivamente recebido pelas empresas. O prazo médio para recebimento dos pagamentos é de 47,6 dias, enquanto 7,3% das receitas ainda sofrem atrasos.
Para a entidade, o setor encerrou 2025 sob forte pressão operacional, regulatória e financeira. Entre os fatores que mais impactam a rentabilidade das transportadoras estão os novos custos relacionados aos seguros previstos na Lei 14.599/23, o fim da flexibilização do piso mínimo do frete e os impactos gerados pelas mudanças nas regras de tempo de descanso e espera dos motoristas. Segundo a NTC&Logística, decisões judiciais relacionadas à ADI 5322 reduziram a disponibilidade operacional da frota, elevaram o custo fixo por viagem e aumentaram a necessidade de investimentos em retenção de motoristas, benefícios e qualificação profissional.

O cenário também já afeta os investimentos das empresas. Nos últimos 12 meses, 61,2% das transportadoras não adquiriram novos veículos. Para 2026, 61,5% afirmam que não pretendem renovar a frota, reflexo direto da combinação entre custos elevados, juros altos e insegurança operacional. Apesar disso, o setor ainda demonstra disposição para investir na formação de profissionais. A pesquisa mostra que 92,6% das empresas pretendem ampliar investimentos em treinamento e capacitação nos próximos meses, numa tentativa de reduzir o déficit de mão de obra qualificada.
No segmento de transporte fracionado, que representa 72,6% da amostra analisada, as empresas possuem, em média, 141 veículos e 202 colaboradores. Mesmo assim, a percepção para 2026 ainda é de cautela: 57% acreditam em estabilidade do mercado, enquanto 29,6% projetam piora e apenas 13,3% esperam melhora no cenário econômico.
Além da falta de motoristas, o setor inicia 2026 pressionado pela inflação, juros elevados e novos desafios tributários, como o avanço da reoneração da folha de pagamento, fatores que devem continuar impactando diretamente a competitividade do transporte rodoviário brasileiro.
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