Principal

Ruzi Mel: Da bolsa de valores à cabine de um caminhão

Ruzi Mel: Da bolsa de valores à cabine de um caminhão

Depois de ouvir que era “velha demais” para trabalhar, paulistana recomeçou a vida aos 40 anos, enfrentou o machismo nas estradas e virou símbolo de força feminina no transporte rodoviário

A vida de Ruzimélia nunca foi feita de caminhos fáceis. Conhecida nas estradas como Ruzi Mel, a caminhoneira paulistana transformou dor, preconceito e recomeços em combustível para seguir em frente. Aos 40 anos, quando muita gente acreditava que já era tarde para começar algo novo, ela entrou pela primeira vez na cabine de um caminhão e mudou completamente a própria história.

Antes disso, ouviu frases que poderiam ter feito qualquer pessoa desistir. “Você é velha demais para trabalhar com isso”, disseram quando ela tentava voltar ao mercado de trabalho após ficar desempregada. Em outras entrevistas de emprego, a resposta era ainda mais direta. “Tem empresa que já me falou no telefone: ‘a gente não contrata mulher’”, relembrou.

Nascida em São Paulo e filha de pais do interior, Ruzi cresceu em uma família rígida. Aos 17 anos, fugiu de casa para se casar. “Minha mãe não deixava nem eu sair no portão”, contou. O casamento veio cedo, assim como as responsabilidades. Teve três filhos ainda jovem e precisou amadurecer rapidamente para sustentar a família.

Durante muitos anos, trabalhou em diferentes funções para sobreviver. Já foi doméstica, office girl, atendente administrativa e até operadora de pregão da Bolsa de Valores de São Paulo, numa época em que o mercado financeiro ainda funcionava no grito e no telefone. “Era estressante, mas eu gostava”, afirmou.

Mais tarde, ao lado do atual marido, entrou no ramo das bijuterias. O casal abriu uma loja na Zona Leste de São Paulo e tentou crescer no mercado. O negócio funcionou durante quatro anos, mas acabou quebrando por causa da forte concorrência com produtos importados. As dívidas chegaram junto com o desemprego.

Foi nessa fase, aos 37 anos, que Ruzi sentiu o peso do preconceito etário. Mesmo com experiência profissional, não conseguia mais espaço em escritórios. “Ninguém me pegava mais para trabalhar”, contou. Sem renda e precisando recomeçar, comentou em uma conversa informal que gostaria de trabalhar como motorista, imaginando dirigir carros ou vans.

A mudança de vida começou ali, dentro da bomboniere do irmão. Um rapaz ouviu a conversa e comentou que a empresa onde a esposa trabalhava contratava mulheres para dirigir caminhões. Aquela ideia, até então distante, despertou algo imediato nela. “Quando ele falou isso, eu gostei na hora”, lembrou.

Sem dinheiro até para tirar a habilitação profissional, Ruzi vendeu um computador e contou com ajuda do companheiro para conseguir pagar a CNH categoria D. Aos 38 anos, tirou a carteira. Aos 40, começou oficialmente a trabalhar como motorista de caminhão.

O primeiro contato com um veículo pesado veio acompanhado de medo e insegurança. “Eu não tinha ideia de como dirigir um caminhão”, disse. Aprendeu praticamente na prática, encarando testes, manobras e caminhões enormes sem nunca ter tido experiência anterior. “Dirigir para frente é fácil. O problema é manobrar”, brincou.

Na empresa que lhe deu a primeira oportunidade, encontrou algo raro no setor: incentivo para mulheres. Segundo ela, muitas motoristas eram contratadas mesmo sem experiência e recebiam treinamento no pátio antes de assumir as ruas. Até hoje, Ruzi acredita que esse é o principal caminho para aumentar a presença feminina no transporte. “A mulher tem capacidade, sabe dirigir, mas muitas vezes não recebe oportunidade”, afirmou.

Pequena no tamanho, mas cheia de personalidade, Ruzi logo chamou atenção nas estradas. Caminhões rosas, roupas chamativas e muita vaidade fizeram com que ela ganhasse apelidos carinhosos, incluindo o de “Penélope Charmosa dos caminhões”. Mais do que estilo, aquilo virou símbolo de representatividade dentro de um ambiente dominado por homens.

Nem sempre o respeito veio de forma imediata. Em algumas situações, enfrentou comentários machistas e ofensas no trânsito. “Já mandaram eu ir lavar cueca, pilotar fogão”, contou. Mas nunca deixou que isso a abalasse. “Eu piloto fogão muito bem também”, respondeu, com bom humor.

Ao longo dos anos, trabalhou em diferentes áreas do transporte. Fez viagens para Minas Gerais e Paraná, dirigiu ônibus, trabalhou no aeroporto de Guarulhos e também comandou caminhões de coleta de resíduos e caminhões-pipa. Dormiu em postos, enfrentou madrugadas, medo de assaltos e longas esperas para descarregar cargas.

Mesmo diante das dificuldades, Ruzi encontrou nas estradas uma nova identidade. “Eu sempre gostei de carro grande”, disse. O caminhão deixou de ser apenas trabalho e passou a representar independência, superação e liberdade. Hoje, ela segue defendendo a presença feminina no setor e incentivando outras mulheres a não desistirem dos próprios sonhos.

A caminhoneira também se tornou personagem importante do movimento “A Voz Delas”, iniciativa voltada ao fortalecimento feminino no transporte e logística. Para ela, projetos assim ajudam a abrir portas e mostrar que as mulheres podem ocupar qualquer espaço. “Representa o poder das mulheres”, definiu.

Atualmente, enquanto busca uma nova oportunidade no transporte rodoviário, Ruzi trabalha com aplicativos de mobilidade em São Paulo. Ainda assim, deixa claro que seu objetivo continua sendo voltar para a boleia de um caminhão. “Eu vou ser motorista de caminhão. Vai dar certo”, afirmou.

A história de Ruzi Mel é marcada por quedas, recomeços e coragem. Uma mulher que fugiu de casa aos 17 anos, enfrentou falência, preconceito e insegurança, mas encontrou força justamente onde muitos acreditavam que ela não teria espaço. No fim das contas, a estrada virou o lugar onde ela finalmente conseguiu dirigir a própria vida.

Comentarios


x

INSCREVA-SE

Preencha os dados abaixo para se inscrever nos cursos do Planeta Caminhão
Ao clicar em Registrar, você concorda com os Termos e Condições estabelecidos por este site, incluindo nosso Uso de Cookies. leia aqui.