Durante 23 anos, o Scania 111 de 1978 do seu Aldo cruzou o Brasil carregando não apenas cargas, mas o sonho de formar quatro filhos se tornou símbolo da luta de um caminhoneiro para formar os quatro filhos
Existem caminhões que transportam cargas. Outros carregam histórias. E há aqueles que levam sonhos inteiros dentro da boleia. Para o caminhoneiro aposentado Aldo Fridolino Schneider, de 77 anos, o seu lendário Scania 111 nunca foi apenas um veículo de trabalho. O clássico “Jacaré” se transformou no maior símbolo de uma vida dedicada à família, à estrada e ao sonho de garantir um futuro melhor para os filhos.
Natural de Marcelino Ramos, no Rio Grande do Sul, mas morador de Concórdia, em Santa Catarina, há mais de quatro décadas, Schneider percorreu o Brasil de ponta a ponta durante 23 anos ao volante do mesmo caminhão. Foram mais de dois milhões de quilômetros rodados levando cargas, enfrentando madrugadas, saudades e longas via, tudo para conquistar aquilo que ele e a esposa, Leda, sempre desejaram: ver os filhos formados. “Eu e minha esposa Leda, hoje já falecida, sempre tivemos o desejo de estudar. Eu queria ser médico, mas não foi possível, então realizei o meu sonho e o dela por meio dos sonhos dos nossos filhos”, relembra.
O Scania 111 entrou na vida da família em 1980 e nunca mais saiu da memória de Schneider. Em uma época decisiva, quando precisaria escolher entre investir em um caminhão mais novo ou ajudar os quatro filhos — Aldo, Jean Pierre, Leila e Fernando, a cursarem a faculdade, o caminhoneiro tomou a decisão que mudaria o rumo da família.

“O 111 me marcou, porque quando estava na época de trocar de caminhão, chegou o momento dos meus quatro filhos fazerem faculdade. Então, ou eu comprava um caminhão mais novo ou ajudava com a faculdade. Este meu jacaré é símbolo da luta para formar meus filhos e valeu a pena, porque um deles é médico cardiologista e os outros três cirurgiões dentistas”, conta.
Uma vida inteira na estrada
Muito antes do Scania 111 chegar à garagem da família, a paixão de Schneider pelos caminhões já fazia parte da sua rotina. Ainda criança, ele construía caminhões de madeira para brincar e passava horas observando os veículos cruzarem a estrada próxima de casa. “Sempre achei bonito, imponente, e olha que naquela época nem tinha rodotrem”, diverte-se.
A carreira nas estradas começou oficialmente na década de 1970, quando tinha apenas 22 anos. Sempre atuando como caminhoneiro autônomo, Schneider teve outros modelos antes do famoso Jacaré, incluindo um Scania L110. Mas foi a partir dali que nasceu a ligação definitiva com a marca. “Depois que conheci os benefícios da Scania não larguei mais. É um ótimo veículo, de fácil manutenção. Se tivesse que comprar um caminhão hoje, com certeza, seria Scania”, afirma.
.png)
Ao longo de cinco décadas transportando cargas, ele carregou praticamente de tudo pelas rodovias brasileiras: produtos frigorificados, itens de limpeza, eletrodomésticos e até blocos de alumínio. As viagens longas se tornaram rotina, especialmente para destinos como São Paulo, Manaus e o Nordeste. “Eu conheço quase o Brasil todo. A maioria das minhas viagens eram longas. Só para o estado de Roraima que não viajei”, recorda.
O dia em que a estrada virou festa
Entre tantas memórias acumuladas na boleia do Scania, uma delas segue viva como se tivesse acontecido ontem. Schneider lembra exatamente onde estava quando recebeu a notícia que marcou definitivamente sua trajetória como pai. “A felicidade era saber que um filho estava fazendo a prova. Eu ficava muito ansioso”, conta.
Ele relembra que chegou em casa em uma sexta-feira e encontrou a filha, Leila, chorando, acreditando que não havia conseguido passar no vestibular. Sem muito tempo para permanecer em casa, precisou pegar a estrada novamente. Dias depois, durante uma ligação feita no domingo para avisar que estava tudo bem na viagem, recebeu a notícia inesperada.“Minha casa estava em festa, porque a Leila tinha passado no vestibular. Isso me marcou muito”, emociona-se.
.jpg)
O reencontro com o Jacaré
Depois de mais de duas décadas trabalhando com o Scania 111, Schneider decidiu vendê-lo para adquirir um modelo mais novo, o Scania 113. Posteriormente, também comprou um Scania 400 para ampliar a operação. Os anos passaram, a aposentadoria chegou em 2021 e os caminhões mais novos acabaram vendidos. Mas o velho Jacaré continuava ocupando um espaço especial na memória da família.
Foi então que o filho Jean Pierre, ao lado da esposa Tíssiana, decidiu transformar o sonho do pai em realidade. Durante dois anos, eles procuraram pelo antigo Scania 111 até encontrarem apenas a sucata do caminhão em Itajaí, no litoral catarinense.
A partir dali começou uma restauração completa, feita com o objetivo de deixar o modelo o mais fiel possível ao original. O resultado emocionou Schneider. “A gente construiu uma garagem maior para abrigá-lo e hoje ele chama a atenção de quem passa na rua. Pedem até para tirar foto com ele”, diz com orgulho.
Hoje, mais do que um caminhão clássico preservado, o Scania 111 da família Schneider representa uma era em que a estrada era construída com sacrifício, coragem e propósito. Um Jacaré que ajudou a transformar quilômetros em diplomas, viagens em conquistas e diesel em futuro. E talvez seja exatamente por isso que certos caminhões nunca deixam de rodar, mesmo depois de estacionados para sempre na garagem da memória.
.png)
Super Motoristas
Comentarios